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Convite à mediocridade

                                                                                                                                                                                                                                                                                              

back to estudos

Certos cumes de tolerância são superados quando percebo que a comparação de crenças e credulidades nada mais é que um esforço pessoal e de outros na surdina mental de fazer satisfatório justamente aquilo que se encaixa na beleza de Deus. A realidade plena, no mundo da espiritualidade, nos é mostrada e revelada pelo desconforto individual das taxações acerca de idéias estritamente pessoais, sobretudo de responsabilidade pessoal, criando a essência da intolerância que se relaciona constantemente com o menosprezo e incapacidade de reflexão. Sobre como se adentrar à mediocridade espiritual, convido-lhe a trilhar o caminho que termina na paixão humana pelo desenvolvimento da hipocrisia.

1. Aparente ser:

Não há como julgar se o julgado for superior às expectativas de convencimento. Demonstre unicamente aquilo que não pode ser retirado por qualquer que seja a adjetivação: demonstre ser espiritual. Há uma tênue linha que separa a sinceridade do aperitivo humano na criação de máscaras e tapumes, e a espiritualidade apenas é demonstrada pela necessidade de confirmação externa. Dados os primeiros passos para que se tenha respeito e admiração, julgue o próximo.

2. Seja Inquisidor:

Os fantoches da falsa espiritualidade são os outros: lembre-se sempre disso. Seja bajulador da verdade plena e não tenha piedade daqueles que se negam a percorrer a estrada de sua espiritualidade. Se existe uma bifurcação no caminho espiritual a ser percorrido, obviamente que você está na vereda aceitável pelo Deus a quem presta cultos, oferendas e sacrifícios. Como formalizar o julgamento é somente um parâmetro de cunho pessoal, transmita sua indignação por meio de conversas e bate-papos entre aqueles que apóiam e usam sua máscara. O diálogo será satisfatório, creia nisso, pois não irá se falar sobre coisas ou assuntos, mas sobre pessoas. Divulgando você aos outros o leite que alimenta a convicção de cada um, forme no diálogo uma aparência de certeza acerca da espiritualidade que o outro necessita. Se a conversa não for o suficiente para o convencimento, convença-se uns aos outros: a terapia de como queimar um fraco na fé é excelente, por que como pode um fraco se dizer aquilo que sempre você aparenta ser? Para melhores efeitos no diálogo entre você e os espirituais e santos, fale daquilo que o outro não acredita.

3. Queime-o vivo:

As maneiras de como medir a espiritualidade são muitas, mas cai como luva argumentar sobre como levantar o fraco na fé, "o herege que não acredita naquilo que acredito". Haja com o sujeito como se nada fosse anormal, afinal de contas a máscara da espiritualidade tem validade até mesmo nas relações diárias interpessoais. Instigue assuntos que falem sobre o que ele não acredita, pois você, amparado pela vitória de sua verdade, triunfará por sobre as mentiras de um demônio enrustido. Fale de orações, e fale por sobre quem você orou; não há melhor forma de demonstrar proximidade com Deus. Deus não escutará suas orações? Revele-se na oração, revele-se nas próprias palavras. Revele-se em reuniões de oração, pois intrigantemente a máscara se encaixa melhor nessa situação. Mas não se alegre muito: as conseqüências dessa investida podem se tornar perigosas, porquanto o amor familiar não se falseia. Para que você se sinta melhor auto-convencido, leia livros que instigue a aparência.

4. Busque justificativas:

Os livros de auto-ajuda espiritual são essenciais e indispensáveis. Nunca os deixe fora de alcance. Para qualquer dúvida, leia um parágrafo e convença-se.

5. Seja incontestável:

Como pode sua concepção e prática de espiritualidade ser dúbia, por sinal, contraditória com aquilo que você é? Nunca deixe de proferir palavras de conforto, visto que sua máscara de confortabilidade é resultado de sua aparência. Não seja realista: como pode o cristão, o vitorioso, o ungido, não acreditar na maquinação da realidade a favor do lucro e vida fácil? Lembre-se que "tudo posso naquele que me fortalece". Mas esqueça o versículo anterior, ele foi inserido pelo demônio através das mãos de compiladores carnais. A sua máscara depende da coerência de suas palavras, e por conseqüência demonstrar fraqueza é se demonstrar fraco na fé.

6. Não duvide:

Duvidar é coisa de gente sem fé.

7. O diabo, seu amigo:

Para enfatizar a importância desse carismático e horrendo ser, considere-o amigo de sua espiritualidade. Faça-o mestre de suas investidas literárias na santa batalha espiritual que instiga a sua caminhada em busca da felicidade em Cristo. Nada seria de você sem um empurrãozinho no dualismo espiritual, pois para quê amar a Deus se não há condenação, inferno, diabo, demônios, vultos e macumbas? Nas horas de desespero, nas horas em que não há mais solução, nos momentos de angústia e aflição, o diabo é o amigo de suas desculpas. Fale dele, constantemente. Mas não fale muito, pois pode ficar evidente demais que a sua fé se baseia no medo do inferno e condenação. Trate-o como semi-deus. Se do contrário, a luta maniqueísta não terá razão, e como poderá você manter sua espiritualidade perante a destituição do seu amigo, o diabo, justo aquele que é a base do fortalecimento de sua fé? Nunca fale de Deus sem citá-lo, pois Deus sem o diabo não tem graça, inclusive Graça.

Odeie o diabo, mas ame odiá-lo. Transfira suas amarguras e ganâncias ao demônio que instiga suas orações e petições, ordens e determinações.

Dê nome aos demônios, pois como se familiarizar com seus amigos se os mesmos não têm identificação? Identifique-os, e faça a sua parte: catalogue-os na lista de doenças e maledicências. Aponte os demônios que assolam a vida dos mundanos e infiéis. Aponte os demônios que alegram seus dias de vitória espiritual.

Jó era um mero aprendiz.

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