Caipiras nas idéias to estudos
Filipe Liepkan Maranhão
Temos de ser sinceros: nem toda pessoa discute idéias. Quando discutimos uma idéia, a própria idéia obviamente é o cerne da questão. Porém no meio cristão temos uma prerrogativa às idéias, pois elas nos trazem "questionamentos maléficos". Discutimos, por exemplo, sobre uma doutrina que envolve Deus e a criação da humanidade, mas o suicídio é um dogma indiscutível. Discutimos sobre a validade do Velho Testamento nos tempos atuais, porém falar sobre a infalibilidade bíblica no literalismo textual é uma afronta! Discutimos sobre como a teoria da evolução é um perigo para a cabeça de nossas pobres crianças imaturas, contudo afirmar que ela explica "algumas coisas" é uma heresia digna do fogo do inferno! Em síntese, quando a idéia atinge nossa própria concepção pessoal sobre um assunto, temos de levar a discussão para o lado pessoal.
Quando temos o ato de nos mostrar intolerantes sobre certos assuntos, tal intolerância é um estereótipo ruim? Eu sou, exemplificando, contra a pena de morte. E considero isso uma posição intolerante, pois não tolero punir alguém com a morte. Seria eu então uma pessoa menosprezável por defender a vida de um indivíduo, mesmo sendo ele um ser enxurro, desprezível, para a sociedade? Indubitavelmente quando falamos que uma pessoa é intolerante cria-se a forma de um ser ruim, rústico e patético. Mas não sendo a intolerância então algo plausível para descrever pessoas ignorantes na discussão de idéias, qual seria a palavra correta para termos uma forma clara de distinguir "discutidores de idéias" de "fundamentalistas em ideologias"? Na realidade não discutir idéias é uma maneira de não ter a mente aberta em aceitar novas legiferações para com a própria ideologia que, sendo fundamentalista, é estagnada na mente da pessoa, sendo a idéia em si maleável nos parâmetros geralmente morais ou de cunho problemático pessoal. Como escudo para não se passar a idéia de impraticabilidade intelectual, ora, nada mais palatável tomar para si a idéia como uma afronta pessoal para com problemas ou vivências pessoais, transformando o debate de idéias em verdadeiros testemunhos dogmatizados pelos quais somos avisados: "veja! Eu sei do que falo!".
Não invalido perante as idéias os próprios testemunhos, pois eles são uma corroboração de experiências nas quais todos estamos subjugados. Contudo existe uma linha tênue entre "testemunho" e "exemplificação", pois esta não é fundamentada na conseqüência, mas na idéia. Tomando-se a questão da pena-de-morte, ao exemplificá-la, estarei reafirmando minha ideologia acerca de minha posição no assunto. Porém, ao dar o testemunho de um conhecimento meu sobre a razão de não aceitar a pena-de-morte colocando questões pessoais, estarei simplesmente dando acertos naquilo que apenas corresponde a mim, e a mais ninguém. Nisso percebo a fraqueza de certas pessoas em também levar a discussão de idéias para o âmbito pessoal, como se a idéia fosse uma energia praticável ou impraticável se por mim defendida ou depreciada. Percebam que quase sempre uma idéia não é discutida no meio cristão para não termos problemas de envolvimentos pessoais em seus íntimos para com os dogmas estabelecidos. Se esmiuçarmos tais FATOS, deveríamos realmente nos preocupar com a dignificação da intelectualidade apreciada inicialmente pelos reformadores de um cristianismo católico apostólico romano, hilariamente, dogmático com relação às próprias idéias, não obstantes, novas. E as denominações que da reforma se originaram, hoje fabricam suas limitações nas idéias, pois sabem do poderio ideológico em desmentir algumas imposições mentais.
A idéia, assim como a prática das idéias expostas, traz certos constrangimentos aos dogmáticos. A infalibilidade bíblica é um dos assuntos evitados nas rodas de discussão teológica atualmente, pois mexeríamos no literalismo em decorrência da tradução de fidelidade das mesmas em expor a questão central do autor. Ao ser pautada a discussão para com esse assunto, alguns dos participantes se diriam carregadores da verdade extrema e apontaria o perigo em discutirmos esse assunto, enfatizando a condenação ou algo parecido. Devemos notar da sempre e constante forçação dogmática em condenar a idéia e a pessoa por representatividade periculosa na discussão, pois seríamos então fulminados pela ira de Deus ao, simplesmente, discordarmos da grande massa seguidora de algo. Não entro na questão de uma idéia em comum, pois todos nós teremos idéias em comum. Falo, entretanto, da idéia doentia em basear suas evidências no não questionamento de prévias racionais e também espirituais. Nesse ponto, no espiritual, a idéia é um estorvo para o próprio crescimento espiritual, pois amestramos infantilidades no meio cristão descaracterizando a sempre obtida maneira de dissecarmos teologicamente uma doutrina. Não partindo do ponto em que a teologia em si é uma barreira para o próprio desenvolvimento teo-lógico, contestar certos paradigmas seria plausível perante a aberração atual no qual o Evangelho tem sido disseminado.
Quando dito "dogmático" há de se convir da necessidade de distinguirmos tal conceito de "zetético", haja vista que nossa mente é um pouco limitada ao entendermos o dogmatismo religioso. Em suma, aos leitores, "dogmático" é referido aqui como algo fundamentalista no próprio fundamentalismo, visto que se pegarmos as origens da conceitualização, em geral seriam de gênese indutiva na correção de outra questão infundada e assim por diante. Originalmente, na essência de todas as idéias, fundamentações seriam frágeis por não terem uma base fixa no pensar e no desenvolvimento intelectual, porém proibirmos novas formulações justamente pelo medo de sermos castigados é deveras límpido e retrógrado. Não acredito na inocência de quem proíbe; sabe ele muito bem que a proibição é a arma mais fácil de se conter um pensamento, digamos, fértil, ainda mais quando envolve o espiritualismo pérfido atual proclamado ao mundo como uma "nova-manifestação-profética-da-verdade-inacabada-de-Deus".
Devemos reconhecer: a evolução das idéias é libertadora. No sangue de Cristo, que nos liberta, estagnarmos mentalmente em um conceito é antagônico para com o nosso caminhar espiritual no entendimento bíblico e cristão. A estagnação é fruto não de nossa fé-firme como alguns gostam de prolatar, mas sim de construirmos moldes em nossa mente de como Deus teria de ser se, por um acaso, passarmos por determinado problema. Daí saírem as diversas e diversas formas de "unção", ou de como ungir, algo para estabelecimento de uma bênção qualquer, sempre também corrigindo pecados que necessitam de um sacrifício processual paralelo ao próprio sacrifício de Cristo.
Estejamos atentos. Proibir de pensar e formular novas idéias não é ação do capeta nem uma tentativa maléfica do demônio em coibir nossa intelectualidade; é sim uma condição humana de alguns desesperados ao terem por perto um óbice para aquilo que sempre acreditaram como verdade absoluta.
Filipe Liepkan Maranhão
fonte: http://aignoranciaeumaescolha.blogspot.com
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