Eram homens to estudos
Talvez a conseqüência mais devastadora da valorização humana seja a proliferação de atos e conceitos que se justificam na humanidade alheia. A ideologia de que biblicamente não há resquícios de humanidade nas palavras dos devidos autores bíblicos favorece a personificação desenfreada de cópias, bem ajustadas, de atos e jargões, exaurindo certa identidade recíproca religiosa. É interessante observar pessoas que se limitam ao uso de expressões apostólicas para fim de auto-justificação e embasamento de idéias.
Cansa observar indivíduos nos mais altos indícios de religiosidade, justamente quando estes se mostram usuários da humanidade alheia, moldando-se nas afinidades praticamente amistosas de personagens bíblicos que eram, ora, humanos, e portanto sujeitos às paixões das idéias estritamente pessoais. A intimidade com a mensagem bíblica, usando-se de termos e conceitos apostólicos, nada mais é que a expressão da humanidade inerente àqueles que se submetem a um grande fardo, caso esse dos apóstolos. A diferença está na mera imitação como fundamento de um fardo fingível, copiável e falseado na aparência.
As analogias de que os atos dos apóstolos eram embasados nos atos de Cristo originou o erro da comparação entre atos gananciosos e a estrita relação entre os atos de Cristo e sua mensagem. Assim, fez-se necessário afirmar que, não seguindo os atos dos apóstolos, estaremos entrando em contradição com o Evangelho, porquanto os relatos de grandes feitos apostólicos é a complementação do próprio Evangelho de Cristo. É uma analogia, por sinal, temerosa. Tal interpretação no que concerne à inspiração divina favorece, passivamente, a desvinculação da mensagem de Jesus Cristo para o âmbito das opiniões, as quais se mostram contundentes e certeiras pelos autores do Novo Testamento.
A imagem que se tem da inspiração divina constrói a metáfora de vertigens inspirativas, dando, a saber, que os autores bíblicos, em completa independência às paixões pessoais, escreveram, ou melhor, somente relataram a vontade divina; e o questionamento, perante essa premissa, é inviável. Perdeu-se a visão da essência da mensagem do Evangelho pela literalidade de palavras construídas no léxico de um idioma, e as análises interpretativas sobre como e o porquê de certos argumentos nada mais são que a busca pela verdade nos pressupostos da vontade do autor; e não há como fomentar melhor administração da vontade divina. É mais satisfatório, e portanto mais cômodo, seguirmos as entrelinhas de mandos e desmandos perante a literalidade bíblica, pois ao que foje dos parâmetros da literalidade sequer deve ser levado em conta nos angustiantes transtornos que o legalismo nos fixa diariamente.
Talvez o maior fardo dos apóstolos não foi a responsabilidade da propagação inicial das palavras de Jesus, mas serem baseados tão somente nas palavras do Mestre, não sendo organizados pela formosura da gaiola da religião. E a demonstração de humanidade, quando nas mínimas atitudes de ajuda aos carentes, fez-se presente pela vivência e reconhecimento dos atos de Cristo na plenitude do que é ser seguidor do Evangelho. Siga o Evangelho sendo humano, e como negar ao próximo a essência do cristianismo, o amor, principal mandamento, o fundamento da cruz?
Mas a ganância do homem no controle alheio se mostra como câncer na tentativa de manter o cristianismo como um ato de imposição, e não de vontade; e as necessidades de regras, leis e santificações foram obtidas na inconsistência da prática das palavras de Cristo. A falsificação do Evangelho, perante a literalidade e o legalismo regrado de mandamentos, ajustou a hipocrisia humana ao consenso de que é na aparência que o Evangelho se fortalece, e quão doce é a ilusão da aparência, porquanto a aprovação dos observantes é confortadora ao ego de nossa perversidade.
Que seja o Evangelho resultado das palavras de terceiros às palavras de Cristo; são os relatos em suas histórias mais simples, mas complexas no entendimento, que ditam os fundamentos do que é ser ou não um cristão, um "somente" seguidor das palavras de Cristo, cristão não no adestramento pelo medo da condenação, mas pela paixão de ser amparado pela paz do Evangelho.
E pelo homem que sou, sujeito às paixões da ganância e mediocridade, posso entender a razão do desespero de Paulo em caracterizar a Graça. Não diria que ele foi falho em suas colocações, porém há muito além daquilo que sequer consideramos como incompreensível, ou talvez seja tudo tão mais simples que não consigamos presumir pela nossa ânsia à complexidade. |