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Moldando a verdade subjetiva   

                                                                                                                                                                                                                                                                                              

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Para qualquer que seja o embasamento das idéias, até mesmo das mais mesquinhas, há de se assumir a possibilidade de referências na busca de uma autoridade no argumento. A maré das referências se alterna na concepção do contexto dito, e biblicamente o assunto se agrava na paixão individual de justificativas e fundamentos retóricos. Não é sem motivo que o estudo de referências muitas vezes apenas é resultado da falta de reflexão nas mais diversas conseqüências de um conceito, ademais que biblicamente, nas vastas interpretações textuais, qualquer ato e idéia pode ser justificado. A religião como pauta de conduta e conceitos não se sustenta em teorias, mas nas certezas; e como não estabelecer certezas sem o peso da autoridade? É confortador e praticamente necessário que se use as referências para que não se tenha, pelo menos por um número vasto de indivíduos, controvérsias e discordâncias.

A interpretação é definitivamente o grande obstáculo das referências de autoridade, e falar acerca da Bíblia em trechos ambíguos, com dezenas de subjetividades, é anuir discussões sobre a vontade do autor nas palavras descritas. O estudo hermenêutico e interpretativo, como artes que estão sob métodos e diretrizes, estabelece a incapacidade, mediante as palavras, de se chegar ao consentimento da vontade do autor; em contraponto, afirma-se sobre a interpretatividade das letras descritas, vinculando o que é claro e óbvio à finalização da interpretação, porquanto não há subjetividades a serem exploradas.

Assim se dá a maratona dos apontamentos bíblicos na ênfase de justificar qualquer idéia. Obviamente que a interpretação de argumentos bíblicos imperativos é estreita, porém a analogia de entendimento sobre o contexto aniquila o totalitarismo de interpretação textual bíblico, marginalizando as correntes doutrinárias que destoam da analogia geral, aquela mais aceita pela grande maioria. Qualquer texto pode trazer embasamento à qualquer idéia, desde que seja não tão somente específico, mas geral e de muitas subjetividades.

É perceptível e literalmente desconfortante o reconhecimento desses entraves à unanimidade das análises interpretativas. Nas formalizações e na evolução da mística cristã, deu-se como parâmetro acima da própria subjetividade e interpretação a revelação divina acerca da vontade do autor em seus escritos, anulando definitivamente, àqueles subjugados a tal conceito, as discussões que poderiam levar ao desentendimento doutrinário. É temeroso e constrangedor duvidar de um indivíduo que se faz como véu separador da ignorância humana na interpretação, visto que o argumento da revelação divina visa, em suma, demonstrar ignorância ou desconhecimento do óbvio àqueles que não são íntimos de Deus e aptos a receber instruções e condutas. Interessantemente que tais revelações são quase que estritamente vinculados às idéias morais e subjetivas, construindo um laço de coincidência insinuante entre Deus e o indivíduo portador da revelação. Vê-se em muitos deles, se analisarmos a vontade de Deus, que são literalmente Deus falando, porque é estupendo como Deus fala justamente as concepções morais do sujeito.

Que não se diga sobre a impossibilidade de interpretação, mas quando se observa narrativas que são de correspondência à outra realidade religiosa e social, há de se ponderar a evolução da razão e dos preceitos científicos. Contudo, tentar ao menos sugerir tal ponderação é assinar o contrato do racionalismo, ademais, aos religiosos, o atestado do obscurantismo espiritual. É imprescindível à religião a estagnação dos conceitos iniciais, formalmente descritos textualmente, pois não se deve desmistificar ideologias tão fortemente usadas no aconselhamento de grandes comunidades religiosas, haja vista que seria a ruína do sistema de padronização moral no que tange a observação padronizada de textos bíblicos. Retirar de pauta a revelação divina no direcionamento da interpretação é construir o primeiro degrau ao raciocínio interpretativo, e para tal as instituições religiosas não têm base ideológica no suporte de tamanho fardo. Indicar a subjetividade da interpretação abalaria a certeza e convicção que fornecem à religião o consolo da verdade plena.

O estudo exegético é a possibilidade, dentro da teologia, de elucidações quanto aos textos ambíguos e de difícil compreensão. Entretanto, o problema se instala na acepção dos relativismos, pois se busca na exegese teológica o último fundamento interpretativo, que seria, assim, a verdade em si. A defesa da interpretação e referência bíblica na exegese apóia-se na busca objetiva da verdade; mas tal interpretação apenas é a máscara por cima da qualificação daquilo que não deve ser enunciado como possibilidade de interpretação, porquanto destoa de outros fundamentos já estabelecidos, fixos no parâmetro de possibilidades plausíveis. A ânsia da busca pelo real sentido do autor é mera categorização na demonstração pessoal daquilo que se deseja explanar; e a melhor forma de convencimento concernente à interpretação de algum texto se forma na retórica de que, em determinada exegese, esta se fez mais próxima da intenção do autor.

As apaixonadas manifestações pedantes sobre a verdade insinua a busca humana na acomodação em detrimento ao desenvolvimento opinativo, posto que as referências apenas moldam e favorecem idéias baseadas justamente na intenção do escritor, e esta apenas é discutível no campo do achismo e deduções vagas. Até mesmo o silêncio pode ser interpretado pela subjetividade, e não existem parâmetros para que intrinsecamente sejam dados diversos e tantos outros conceitos à intenção do silente.

Qualquer interpretação será estritamente pessoal; padronizá-la aos limites do aceitável é, somente, enganar os incautos.

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