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Predestinação - uma implicação teológica

                                                                                                                                                                                                                                                                                              

Predestinação - uma implicação teológica  back to estudos
* Nilson José Santana

"Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus; quão insondáveis são os teus juízos, e quão inescrutáveis os teus caminhos... porque dele, e por ele e para ele, são todas as coisas" (Romanos 11.33,36).

Fiquei muito surpreendido quando deparei-me com um opúsculo, cujo tema era doutrina da predestinação. O autor aborda o assunto não só a luz dos versículos da bíblia, mas com profunda convicção pessoal.

Ninguém de bom senso pode negar que muitas são as passagens bíblicas de onde se pode inferir várias doutrinas sobre esse tema tão complexo. Por um lado, não se pode nega-lo dado às suas evidências bíblicas. Pelo outro, torna-se uma doutrina perigosa e paradoxal. Até mesmo os escritores bíblicos, são divergentes quanto à sua origem. Adiante explicaremos.

Uma predestinação conforme a apresentada pelo nosso interlocutor , torna-se sofismática o que foge do princípio exegético de interpretação bíblica. E ele, simplesmente, faz um verdadeiro bombardeio de textos e versículos bíblicos, com bem pouca explicação contextual.
Em suma, ele padroniza e universaliza usando o tempero calvinista.
Uma predestinação conforme esse sistema interpretativo, tem o objetivo de desviar-se para um perigoso fatalismo; neste, todas as coisas, boas ou más - o bem ou mal, têm uma única e proposital origem - Deus.

Satanás, segundo o fatalismo, tem sua origem em Deus. Assim, Deus após criar Lúcifer e colocá-lo sobre sua disposição, já sabia que iria cair, pois foi criado para isso.
De igual modo, dando seqüência à sua prepotência, também criou o homem e deu-lhe um falso livre-arbítrio, porque sabia de sua inevitável queda.
É claro que a doutrina encarada dentro de um ponto de vista desse, faz de Deus um egoísta e tirano e de suas criaturas, simples títeres e joguetes de sua prepotência. Com isso, tira de suas criaturas o tirocínio, a razão e conseqüentemente sua individualidade como ser responsável.
O fato, é que esse tipo de doutrina é sempre apresentada num amontoado de textos bíblicos e perigosos conceitos filosóficos.
É tão perigosa, que de acordo com o conceito universal de predestinação, Deus, dentro de uma atitude irrevogável, já havia predestinado seus eleitos antes da fundação do mundo.O pior de tudo isso, é que antes mesmo do pecado existir, já estava irremediavelmente perdido.
Outro sofisma filosófico, é o de que o livre arbítrio só foi concedido a Adão. Com a morte deste, desapareceu.
O pecado, a degeneração moral, a morte física e espiritual, passaram a todos os homens. Porém o livre-arbítrio, dizem eles: não.

Se procurarmos um contexto compatível com misericórdia e justiça divinas, certamente que iremos cansar nossas mãos tem folhear, e enfraquecer nossa visão em ler tantas passagens bíblicas sobre a possibilidade de decisão da criatura em relação ao criador.
Toda a bíblia é taxativa a esse respeito: começando pelo livro do profeta Ezequiel, temos: "a alma que pecar, essa morrerá... mas, se o ímpio se converter de todos seus pecados que cometeu... certamente viverá " (Ezequiel 18.20 e 21); mas cada um morrerá pela sua iniqüidade "... (Jeremias 31.30); "de maneira que cada um de nós dá conta de si mesmo a Deus " (Romanos 14.12).

Ora, se cada um morre pelo seu pecado; se cada um precisa se converter para ser salvo e se cada um dá conta de si mesmo a Deus, é porque cada um tem um livre-arbítrio para tomar essa decisão. Não se pode harmonizar responsabilidade sem liberdade.

Outro sofisma da teoria predestinacionista, é que depois da queda de Adão, surgiram duas sementes: a do mal representada por Caim, e a do bem representada por Abel. A semente deste, seriam os filhos da bênção ou os eleitos para a vida eterna; ao passo, que a descendência de Caim, seriam os predestinados para a execração eterna.

Apesar da Bíblia nada revelar sobre a descendência de Abel, temos em Sete seu sucessor imediato na promessa predestinativa.
Noé é descendente de Sette; também o é Abraão. Toda nação israelita descende de Sete. Logo, todos são, filhos da bênção. Logo, predestinados para salvação. Isso explica, porque os defensores da predestinação usam, Deuteronômio 7. 6;14.2; Isaías 41.8,9 e 43.10, para explicar como Deus escolheu a naçõe israelita e a elegeu como povo santo.
Será que todo israelita é mesmo predestinado para salvação? Será que todo judeu é salvo?
Porque será que justamente Acã descendente de Judá e primogênito da promessa, além de ter sido amaldiçoado por Deus, foi morto com toda sua família? (Josué 7. 1,25);
Qual a razão do ultimato lançado por Deus a toda a nação, apelando para a sua liberdade de escolher entre o bem ou mal? (Josué 24.15). O problema, é que Deus chama de maldita e ameaça com maldições de toda espécie, aquele que escolhesse seguir outro Deus que não fosse o Senhor (Deuteronômio 25.15-20). De acordo com o ensinamento bíblico, nenhum maldito fará parte do reino dos céus (Mateus 25.41).

Se voltarmos no tempo , vamos observar que até mesmo o homicida Caim, também teve o seu direito de livre escolha. Deus apelou para o seu livre arbítrio: "se bem fizeres, não haverá aceitação Para ti ? E se não fizeres o bem, o pecado jaz à porta, e para ti será o seu desejo e sobre ele dominarás" (Genesis 4.7). Eis aí, o inegável e insofismável livre-arbítrio!
Além do mais, como poderia Deus, que do Gênesis ao apocalipse apela tanto para retidão e justiça das suas criaturas (Ezequiel 33.11-20), exigir que Caim dominasse o pecado, uma vez que ele não tinha liberdade para tanto?
Em Ezequiel 33.11, Deus diz que não tem prazer na morte do ímpio "antes, quer que se converta e seja salvo". Salvo de que? Da morte física? Não! Pois, convertido ou não todos morreremos fisicamente. Então surge a pergunta: como poderia alguém que já foi predestinado para morte, viver? Seria Deus contraditório? Talvez. Mas só na interpretação predestinacionista.
Pois bem, diante de tudo que foi exposto, surge a pergunta: se a Bíblia é a inerrante palavra de Deus e jamais se contradiz, como explicar o fato da predestinação ser fortemente mencionada em vários dos seus livros?
Qual a razão de sua existência?
O que fazer para harmonizar predestinação e livre arbítrio?
Se a bíblia não se contradiz, no entanto há tantas aparentes contradições, é porque existe alguma coisa errada na maneira de interpretação.

O texto básico para a defesa da predestinação, está localizado no capítulo oitavo da epístola aos romanos; precisamente os versículos 29 e 30 " porque os que dantes conheceu também os predestinou e aos que predestinou a estes também chamou..." (Romanos 8.29 a e 30 a).

É interessante notar que, em quase todas as vezes que aparece a predestinação na bíblia, está sempre no plural e associada a um passado remoto indefinido: "os que dantes conheceram...". Quando? E em que época do tempo?
Pedro, indiferentemente diz que pertence à pré ciência de Deus (1ª Pedro 1.2);
Paulo, como contexto da afirmação de Pedro, diz que é um mistério guardado em silêncio dos tempos eternos (Romanos 16.25-27); e confirma em II Timóteo, que foi antes dos tempos dos séculos) (II Timóteo 1.9).

Ora, se alguém que teve a revelação de Deus e a inspiração do Espírito Santo não sabe, como é que um limitado e ignorante como eu, vai saber?
O livre arbítrio, pelo contrário, individual, está dentro de um tempo cronológico da história, e há sempre um acontecimento presente (Genesis 4.6-7; Hebreus 3.7-8; Romanos 1. 16,10).

Isto quer dizer que a salvação é uma herança hereditária; um bem de raiz oriundo de uma semente privilegiada. Também não é baseada em uma eleição coletiva ("cada um dá conta de si mesma deus").

Por outro lado, a predestinação nunca é usada do presente para o futuro (note-se que estamos tratando da salvação dos pecadores) e está sempre associada a um passado indefinido, conseqüentemente ela está fora da história e ausente do tempo. Isto significa, sendo nós seres finitos está fora da nossa capacidade limitada, defini-la. É um dos muitos mistérios de Deus. Isto explica porque pouco se escreve sobre assunto tão complexo.

Assim, para acharmos uma coerência doutrinária, entre predestinação e livre-arbítrio, temos que usar dos mesmos expedientes dos nossos interlocutores: os argumentos filosóficos e sofismáticos.

Nessa conjuntura, pode-se idealizar uma tênue explicação baseada no princípio - espaço/tempo: Deus sendo eterno, é absoluto portanto transcende o espaço e tempo. Se Deus criou um espaço de tempo, pode ficar fora deles e ao mesmo tempo dentro sem ser afetado por eles.
Isso significa que para Deus não existe passado presente ou futuro. Deus vive e existe num eterno agora. É desta forma que Deus pelo uso do seus atributos, pode estar ou não relacionado com sua criação: em sua onipotência, Deus tira do nada sua criação. Em sua onipresença de amor infinito, o governo e dirige tudo; e em sua oniciência, sabe tudo que lhe for conveniente.

O livro do apocalipse, é um exemplo vivo destas verdades. Nele, Deus narra acontecimentos que estão dentro e fora do tempo cronológico (Ap 22.5).

Uma das provas mais reais de que Deus controla o tempo, esta em II Pedro 3.8 "mas, amados, não ignoreis uma coisa: que um dia para o senhor é como mil anos e mil anos como um dia".

É nesta conjuntura, que se pode crer, que cada pecador ao aceitar Jesus como Salvador, no dia de hoje, isso pode ter acontecido nos tempos eternos. E se assim é, e está explicado porque Deus tanto proporcionam um livre-arbítrio como predestinou elegeu dentro do seu eterno propósito.

"Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria como da ciência de Deus. quão insondáveis são os teus juízos, e quão inescrutáveis os teus caminhos. Porque quem compreendeu o intento do senhor ou quem foi o seu conselheiro? Porque dele, e por ele e para ele, são todas as coisas" (Rm 11.33-36).

* Nilson José Santana


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